março 29, 2006

Questões de pedagogia

Ainda se recordam das razões da invasão do Iraque? Em primeiro lugar, a eliminação das armas de destruição em massa. Em segundo lugar, o derrube de uma ditadura sanguinária. Presumo que o facto de ser apenas uma ditadura não leva ninguém a defender uma invasão: pelo menos nunca ouvi falar de que houvesse um número significativo de portugueses que achasse que a solução para a ditadura antes do 25 de Abril fosse uma invasão e ocupação estrangeira. A questão é que Saddam massacrava o seu povo, matava arbitrariamente, etc. Em terceiro lugar havia a pedagogia da democracia e dos direitos humanos: os iraquianos iriam converter-se a estes valores e iriam espalhá-los por todo o médio oriente.

Vem este post a propósito de uma notícia que ouvi hoje na televisão, que é em tudo análoga a esta da BBC. Não só hoje se continuam a matar indiscriminadamente iraquianos, como são os próprios funcionários iraquianos que acham normais estas execuções sumárias. Não se trata aqui de conflitos com os invasores nem com terroristas estrangeiros: são os iraquianos que se matam simplesmente uns aos outros, insensíveis à pedagogia da democracia e dos direitos humanos.

Fazendo o balanço da guerra e dos seus custos comparados com os progressos reais, o que temos? Vantagens: houve umas eleições muito participadas no Iraque. Na mesma: continua a não haver armas de destruição em massa, continuam a morrer iraquianos diariamente por razões políticas, continua a viver-se muito mal no Iraque. Desvantagens: toda a destruição provocada nas infraestruturas, todas as mortes da altura da invasão, os custos colossais para os contribuintes americanos, a divisão do Ocidente (entretanto atenuada), o reanimar da Al-Qaeda com desenvolvimento de campos de treino no Iraque (onde nunca estiveram a esta escala), a guerra permanente e a proximidade da guerra civil.

Juntando tudo isto, o Ocidente não deveria pensar em responsabilizar mais seriamente quem começou tudo isto? Ou esqueci-me de contabilizar vantagens económicas de alguns países que justificam a guerra? E será normal que o Ocidente amplie tanto o sofrimento no mundo por razões económicas? É que se o aceitarmos teremos que aceitar que um dia a China ou a Rússia provoquem uma guerra na Europa apenas por razões económicas.

8 Comments:

Blogger NaSacris said...

Esta questão, todos o sabemos, é muito complexa. Se tentamos encontrar razões para invasões, guerras, e demais atentados à vida e à dignidade humana acontecidos no passado e no presente, é melhor desistir. Os motivos que levam os governantes a estas acções creio que nem eles os tem claros. Às vezes a motivação principal vem da indústria bélica que tem "necessidade" de por em campo as suas últimas invenções.
O que me dá raiva em Bush é que declara guerras "em nome de Deus" e depois ainda tem o descaramento de dizer, geralmente no fim dos seus discursos: "Deus abençoe a América", como se Deus não olhasse para aqueles que essa América mata sem piedade.
Enfim. Para entender este mundo acho que nem com um manual de instruções.

29/3/06 22:18  
Blogger Helena Araújo said...

CA,
ainda a guerra do Iraque não tinha começado, e já eu fazia essa pergunta. E já vinha tarde. O Iraque é apenas o exemplo mais recente das assimetrias de poder e direito a nível mundial.
Mas: responsabilizar?! Quem? Como?
Vamos meter o Durão Barroso na prisão? Ou todo o povo português?
Estamos todos enfiados nisto até ao pescoço. Nós também lucramos com as assimetrias - a começar pelo preço dos combustíveis, a continuar no preço dos produtos naturais.
A questão que realmente me incomoda é esta: não haverá uma certa hipocrisia nos meus protestos? O que devo mudar na minha vida para deixar de me sentir cúmplice desta situação?

Uma questão de pormenor: no dia em que os chineses tiverem o mesmo nível de vida e de consumos dos alemães, o nosso planeta vai para os anjinhos. Dá-me jeito evitar que eles cheguem tão longe. Não me dá jeito nenhum baixar o meu nível de vida para o dos chineses...

30/3/06 07:48  
Blogger /me said...

Enfim, enfim, enfim. É isso tudo que dizes.

30/3/06 11:26  
Blogger CA said...

Mais do que meter políticos na prisão (o que até certo ponto seria merecido) o que eu pretendia era reflectir sobre a responsabilidade dos cidadãos. Somos nós que fazemos as guerras quando aceitamos este tipo de políticas.

Uma das coisas que podemos fazer para estarmos economicamente menos dependentes das injustiças é tentarmos viver com menos do que vivemos. Será que poderíamos tolerar viver com menos 10% do que vivemos hoje? (isto não se aplica, naturalmente, aos 20% da população portuguesa que vivem abaixo do limiar da pobreza)

30/3/06 23:47  
Blogger /me said...

CA, talvez possamos, mas acho que nunca enquanto de cima continuarem a vir maus exemplos...

31/3/06 12:50  
Blogger Helena Araújo said...

CA,
Nos últimos 4 meses fiz 8.000 km de lazer (férias, fins-de-semana para visitar amigos, coisas assim). Vou ser honesta: não sei quais das férias ou das visitas a amigos seria capaz de riscar para atingir esses 10% de redução de consumos que propões.
Tanto mais que à minha volta ninguém se priva de nada: para que serve então o meu sacrifício?
800 km a mais ou a menos, quem repara?

Isto não chega a ser uma resposta, é mais uma interrogação que me ponho. Talvez um dia a minha resposta seja: "eu reparo, e isso basta-me".

Responsabilidade dos cidadãos: aqui na Alemanha nota-se bastante nos consumos. Tentar comprar produtos biológicos, evitar produtos agrícolas transportados por avião (morangos em Dezembro), evitar as embalagens, etc.
Para isso, é preciso ter dinheiro (produtos biológicos, produtos agrícolas não embalados, produtos agrícolas da região: tudo isso é mais caro). Aliás, quanto mais pobre o consumidor, mais acrítico o consumo.

Este assunto não tem fim - e parece-me que não tem solução.
Recentemente, a propósito de uma visita de um político chinês à Alemanha, ou vice-versa, quando um jornalista perguntou a um empresário alemão "e você não tem problemas com o atropelo aos direitos humanos praticado pelo regime chinês?", o empresário respondeu: "Isso é lá com os políticos. Eles que façam o trabalho deles. O meu é estabelecer contactos comerciais e fazer crescer a minha empresa, para diminuir o desemprego na Alemanha."

Acho que já disse: estamos metidos nisto até ao pescoço.

5/4/06 11:42  
Blogger CA said...

Me

"CA, talvez possamos, mas acho que nunca enquanto de cima continuarem a vir maus exemplos..."

Será que dependemos dos exemplos de outros "de cima"?


Helena

Não proponho uma redução de 10% do consumo sem mais, mas a criação de condições para podermos viver com menos 10%.

"Tanto mais que à minha volta ninguém se priva de nada: para que serve então o meu sacrifício?"

Bem, à nossa volta há muita gente que se priva de muito mais do que nós, ainda que não o faça voluntariamente. E não se trata de "fazer sacrifício".

Mas se no meu local de trabalho houver necessidade de uma redução de salários para que ninguém seja despedido, estaria disposto a aceitá-la?

Se o nível de vida em Portugal ou na Alemanha diminuir para que o de outros países mais pobres possa crescer, que peço aos políticos? Que me mantenham o nível de vida, custe o que custar aos outros países ou que procurem a justiça a nível global?

Quanto aos direitos humanos na China, o regime chinês tem injustiças gravíssimas mas o desenvolvimento está a tirar muitos milhões de pessoas da miséria, e de níveis de miséria que são também violações graves dos direitos humanos. Será que as objecções ao negócio com a China têm a ver realmente com a defesa dos direitos humanos?

"Acho que já disse: estamos metidos nisto até ao pescoço."

De acordo. Mas então temos que ver como podemos encontrar a liberdade necessária para mudarmos a situação por dentro. Precisar de menos 10% do que aquilo com que vivo era procurar precisamente ganhar espaço de liberdade.

5/4/06 20:37  
Blogger Helena Araújo said...

CA,
completamente de acordo nas linhas gerais, mas tenho problemas com a prática.
Por exemplo, se no meu local de trabalho houver necessidade de uma redução de salários, ou de aumento da carga horária, as pessoas vão desatar a desconfiar que é por causa da Bolsa, ou que a culpa é da má gestão, ou dos chineses que se sujeitam a trabalhar 16 horas por dia por um prato de arroz...
Na Alemanha tem havido bastantes casos de empresas com resultados anuais astronómicos e que despedem milhares de trabalhadores.

Gosto dessa ideia de ganhar espaço de liberdade. Parece-me que é mais fácil conseguir isso em países com nível de vida mais alto (como a Alemanha), e de uma forma positiva: em vez de fazer duas vezes por ano férias no estrangeiro, comprar apenas produtos agrícolas biológicos da região. Duplamente bom para o meio ambiente.
Tanto melhor se houver uma campanha a propor isso. Mas se for eu sozinha...
Conheço o avesso da experiência: pessoal que voluntariamente limita os seus consumos, como propões, e que fica um bocado azedo e crítico em relação a quem não faz o mesmo.

Bem, isto dá uma conversa sem fim. Melhor ficar por aqui.

6/4/06 10:19  

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