maio 28, 2006

A ministra de Cavaco (II)

Maria de Lurdes Rodrigues podia bem ter sido ministra de Cavaco Silva. Muito eficiente a atacar sistematicamente os professores para atingir objectivos financeiros imediatos, ignorando quer os aspectos económicos quer os impactos educacionais. Já aqui expliquei que certas propostas diminuem a imagem pública dos professores (uma imagem positiva ajuda a compensar as perdas de rendimento) apenas para conseguir pequenas vantagens negociais.

A última proposta é tão disparatada que ninguém acredita verdadeiramente que seja a sério: os pais a avaliarem os professores. É preciso não perceber que, para muitos pais e alunos em Portugal o objectivo não é aprender: é o diploma! Não se valoriza muito o conhecimento em Portugal e eventualmente com alguma razão: na prática verifica-se que o preenchimento de muitos cargos e a progressão nas carreiras (também nas empresas privadas, sim!) depende mais das relações sociais adequadas do que da competência técnica. Não é raro que uma grande competência técnica seja mesmo motivo para um funcionário ser preterido numa empresa. Só em situações de grande desespero é que se procuram os melhores técnicos (foi exemplar o caso do software das colocações de professores).

Para muitos alunos a situação é análoga e, como alguém me dizia há algum tempo, os alunos são capazes de tudo para passar. Quando estão muito desesperados são até mesmo capazes de estudar.

Sobre possíveis intenções da proposta, destaco este excerto de um comentário do Rui neste post do Murcon:

A proposta é de tal modo cretina e demagógica que só pode ter 3 objectivos:

1º, Desviar as atenções de outras propostas realmente penalizadoras para os professores (por exemplo, funções atribuídas - 21 para o professor normal, em que cada uma é todo um programa; 29 para o professor titular... nem o Superhomem! Ou as que Viktor já referiu acima; ou o aumento da carga lectiva do secundário; etc).

2º, Vir a servir como moeda de troca para a(s) medida(s) que o governo quer ver realmente aplicadas.

3ºFazer subir a popularidade do governo junto dos pais, ao mesmo tempo que coloca mal os professores (e estes estão a cair direitinhos na armadilha ao hostilizarem os pais em vez de combaterem simplesmente a proposta de alteração da carreira).

P.S. Notícia do Diário Digital:
Estudo: três em cada quatro universitários copiam

Quase três em cada quatro estudantes universitários portugueses admitem já ter copiado, indica o estudo «Copianço nas universidades o grau zero da qualidade», do sociólogo Ivo Domingues, noticia este domingo o Jornal de Notícias. Entre os 1.100 estudantes inquiridos, 71% reconheceu ter recorrido a cábulas ou ter copiado de colegas.

O estudo mostra ainda que perto de metade utiliza cábulas e 70% opta por copiar por colegas.

«Todos procuram copiar quando necessitam», diz o autor do estudo ao Jornal de Notícias. Esta realidade traduz «uma frequência escolar mais orientada para o sucesso certificado e nominal do que para o sucesso substantivo e real», acrescenta.

Ivo Domingues vai mais longe e conclui que as notas reflectem «habilidades periféricas dos estudantes» em vez do «grau de excelência escolar dos licenciados».

O estudo, que será editado pela Formal Press, mostra ainda que quase todos (95%) os alunos cábulas dizem já o fazer desde o ensino secundário. O recurso à fraude na universidade é gradual: apenas metade começa a fazê-lo logo no primeiro semestre, o número sobe para dois terços após um ano e, ao fim de três semestres, o valor sobe para 80%.

Os artigos do Jornal de Notícias são estes:

Copianço generalizado

A batota na versão masculina e feminina

"É do mais normal que há..."

Recomendo especialmente esta entrevista:

A fraude escolar afecta a competitividade dos portugueses

17 Comments:

Blogger abrunho said...

é claro que um aluno copia se lhe derem oportunidade. aqui e em qualquer outro lugar do mundo. a forma de atacar isto é fazendo testes em que o que importa seja o raciocínio e não a memorização.

28/5/06 23:46  
Blogger /me said...

Eu estive quase para escrever um post exactamente sobre esse artigo, em que se pretende que os pais avaliem os professores.

Mas depois, não apenas me subiu demasiado a mostarda ao nariz (eu fico fulo com a irresponsabilidade de quem manda na educação), como me lembrei que possivelmente se tratará de mau jornalismo. Ou, com maior probabilidade, de jogo político por parte do ministério.

Os professores estão a ser maltratados. E é pena, porque são pessoas formadas para o efeito (na sua esmagadora maioria) e é apenas com eles e através deles que se pode melhorar o ensino. Mas parte-se do princípio de que são maus e reles e pronto, vou escrever um post sobre isto.

Mas não podia concordar mais contigo.

29/5/06 09:05  
Blogger abrunho said...

Eu não me vou meter a mandar postas sobre o proposto método de avaliação proposto, mas quando leio os argumentos contra a participação dos pais, sinto que se está a fazer o mesmo tipo de generalização que se faz quanto aos professores.

Os professores são todos reles e para estes, os pais são todos reles. Assim, muito preto no branco.

29/5/06 13:31  
Blogger CA said...

Abrunho

Os argumentos dos sindicatos estão errados de raíz. Não se trata de discutir a competência mas sim a independência dos pais. Por duas razões:
1) os pais até podem ser competentes mas quererem que os filhos tenham boas notas a todo o custo;
2) acontecem situações em que os pais são realmente muito mais competentes que os professores (nas suas área específicas) e reclamam para deficiências na actuação dos professores; ora nestes casos a reacção mais usual parece ser a defensiva e não o aproveitar a situação para aprofundar os seus conhecimentos; será que a reacção dos sindicatos não tem mais a ver com esta defensiva do que com uma postura imparcial?

29/5/06 13:53  
Blogger abrunho said...

Eu cá só acho que é melhor que pais e professores comecem a remar para o mesmo lado, senão bem que a canoa se afunda.

29/5/06 15:52  
Blogger /me said...

Eu acho impossível que pais e professores remem para o mesmo lado. Mas também não precisam, porque devem ter competências distintas, e apenas imiscuir-se no campo de acção uns dos outros em casos muito graves. Na minha opinião, claro.

30/5/06 09:44  
Anonymous Anónimo said...

Confesso estar espantado com o teor deste post (que, entretanto, me parece ter sido matizado em subsequentes comentários).
É muito importante que se criem mecanismos para auscultar o que os pais têm a dizer, e que as suas críticas, qunado justificadas e pertinentes, tenham consequências na carreira dos professores. Precisamente porque, como é dito, a progressão nas carreiras não se tem baseado na competência técnica. E é inaceitável que tal continue.
"Para muitos pais e alunos em Portugal o objectivo não é aprender: é o diploma!" E, pergunto eu, para é que serve o diploma? Não é, entre outras coisas, para dar aulas?...
"Três em cada quatro universitários copiam". E, pergunto eu, quem são estes alunos cábulas? Não são, entre outros, os professores de amanhã?...
Resumindo: seria bom não esquecer que a esmagadora maioria dos professores são pais...

30/5/06 13:22  
Blogger abrunho said...

Ambos devem remar no sentido da educação dos alunos. Esta é a canoa, só que ao ouvir falar alguns professores fico com a sensação de que perderam a noção do objectivo da sua profissão.

30/5/06 15:45  
Blogger CA said...

Caro José

"qunado justificadas e pertinentes"

Precisamente. Só que então não são os pais a fazer a avaliação. Alguém tem que arbitrar, avaliando se as opiniões dos pais são justificadas e pertinentes ou não.

"a progressão nas carreiras não se tem baseado na competência técnica. E é inaceitável que tal continue."

Isto nunca esteve em causa. Mas não são os pais em geral as pessoas capazes de avaliar sistematicamente a competência técnica de um professor (que inclui aspectos científicos e pedagógicos).

"E, pergunto eu, quem são estes alunos cábulas? Não são, entre outros, os professores de amanhã?..."

Claro. Mas neste mundo em que a competência é pouco valorizada, não é pondo os pais a decidir sobre a carreira dos professores que se vai valorizar mais a competência. Antes pelo contrário.

30/5/06 15:51  
Anonymous Anónimo said...

Caro CA

Mas onde leste tu que serão os pais a decidir soberanamente sobre a carreira dos professores? Que serão eles a ter a última palavra? A noticia do Público que linkaste para situar o tema do teu post é clara: "Ministério propôe que pais participem na avaliação dos professores".
Diz ainda o corpo da notícia: "Segundo a proposta (...), cada encarregado de educação individualmente vai fazer uma avaliação do trabalho dos professores (...), uma apreciação que será tida em conta, juntamente com outros factores, para a subida de escalão (...)".
Por outro lado, vale a pena dar conta também de como são tão importantes os exames nacionais: precisamente porque libertam os professores da pressão dos pais que pretendam manipular e falsear as classificações dos seus filhos. Mas, como isso é uma preocupação apenas para os professores competentes, lá vai tocando a banda...

30/5/06 20:39  
Blogger CA said...

Caro José

Uma coisa é clara na transcrição: não é dito que a opinião dos pais sobre os professores será arbitrada por alguém independente. Assim, por menor que seja o peso da avaliação dos pais, pode sempre ser decisiva numa situação. Um professor pode sempre ser seriamente prejudicado por causa de um pai que quer apenas prejudicá-lo.

30/5/06 21:41  
Anonymous Anónimo said...

Caro CA

O texto transcrito deixa subentendido quem terá em conta a avaliação dos pais, entre outros factores: a entidade que emprega os professores. Que os professores questionem a sua independência, tudo bem. Mas fica a ideia de que os professores simplesmente rejeitam ser avaliados por quem quer que seja. O que num Estado de direito é inaceitável.

30/5/06 23:51  
Anonymous Anónimo said...

Quanto ao ser-se prejudicado por uma avaliação injusta, claro que há sempre essa possibilidade. E os professores bem o sabem, quando avaliam os alunos. Mas seria simplesmente absurdo pretender retirar aos professores o poder de avaliar os alunos, apenas porque pode haver estudantes prejudicados e injustiçados...

31/5/06 00:02  
Blogger CA said...

Caro José

A entidade que emprega os professores no caso em apreço é o estado. O estado rege-se por leis. Se a avaliação dos pais é reflectida automaticamente então estou em desacordo porque o professor julga os filhos e depois sofre o impacto da decisão dos pais.

Levar a discussão para o campo do avaliar ou não avaliar é mudar a conversa.

O que falta aos pais é independência para poderem avaliar os professores. Proporia que o ordenado e progressão na carreira dos juízes dependesse directamente da apreciação dos réus e advogados dos casos que ele julga?

31/5/06 00:17  
Anonymous Anónimo said...

Caro CA

Insisto: onde leste tu que a avaliação dos pais será reflectida "automaticamente" no ordenado e progressão na carreira docente? Ou que estes dependerão "directamente" da apreciação dos pais dos alunos?...
E também não percebo a tua insistência sobre a falta de independência dos pais. Estarás a sugerir que são mentalmente incapazes de ser objectivos numa avaliação? Que se um pai denunciar o incumprimento do programa da disciplina, ou o recorrente absentismo, ou a falta de civismo de certo docente, só o faz por estar incompatibilzado com esse professor, ou porque pretende fazer chantagem com ele?...
Já agora: onde é que está a independência dos professores, quando se trata de discutir o estatuto da sua carreira? Mas será isso sinal de que não se pode levar a sério nada do que eles tenham a dizer sobre o assunto?...

31/5/06 13:19  
Blogger CA said...

Caro José

"Insisto: onde leste tu que a avaliação dos pais será reflectida "automaticamente" no ordenado e progressão na carreira docente? Ou que estes dependerão "directamente" da apreciação dos pais dos alunos?..."

Onde é que o José leu que eu disse que ia ser? A minha frase é condicional: se ... então...

"Estarás a sugerir que são mentalmente incapazes de ser objectivos numa avaliação?"

Claramente eu não disse isso. Se alguém está a sugerir é o José.

"Já agora: onde é que está a independência dos professores, quando se trata de discutir o estatuto da sua carreira? Mas será isso sinal de que não se pode levar a sério nada do que eles tenham a dizer sobre o assunto?..."

Mais uma vez o José está a querer tirar das minhas palavras o que eu não disse.

31/5/06 15:25  
Anonymous Anónimo said...

Pronto, já percebi...

Mas, já agora, que fique aqui registada a minha opinião sobre como realizar uma verdadeira avaliação dos professores:
- que os pais possam escolher as escolas que seus filhos vão frequentar;
- que as escolas possam escolher os docentes que nelas vão leccionar.
Não resolveria tudo, mas...

31/5/06 23:30  

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