fevereiro 10, 2006

Respeito

Nesta crise das caricaturas penso que o problema tem a ver com uma falta de respeito pelo que é fundamental para um conjunto de povos.

Senão vejamos: em Setembro, um jornal dinamarquês publica doze caricaturas sobre Maomé e não acontece nada de especial. Em Outubro, um jornal egípcio publica seis dessas caricaturas, e não acontece nada de especial. Em Dezembro há uma reunião de líderes islâmicos onde o assunto é discutido e a partir daí surgem desacatos "espontâneos". Em certos países são incendiadas embaixadas, perante a passividade das autoridades, o que as torna coniventes.

O que estes movimentos pretendem é "apenas" que no ocidente se suprima a liberdade de expressão, passando a ser condicionada pelo que os seus líderes religiosos considerassem aceitável. Trata-se de um formidável ataque a um dos pilares fundamentais das sociedades ocidentais. Talvez seja uma resposta às pressões ocidentais para que os muitos países islâmicos se democratizem.

Acho que lidar com países onde a democracia e o respeito pelas pessoas não é um valor e onde muitas pessoas se prestam a submeter-se a regimes autoritários desde que lhes acenem com alguns valores religiosos é certamente um desafio para todo o ocidente e tenho dúvidas sobre algumas das estratégias adoptadas até aqui.

Registo muito positivamente a defesa clara da liberdade de expressão por parte do Presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso.

Infelizmente houve também reacções que considero inaceitáveis como a do MNE português. Referir apenas a questão religiosa, como que desculpando a violência, parece-me patético. Se se pretendia defender as relações com os países islâmicos, acho que estamos a vender muito barata uma das nossas liberdades fundamentais. Se o intuito era mais católico e pretendia censurar também as "blasfémias" contra os símbolos católicos (só assim compreendo a referência à mãe de Jesus), então isto é o catolicismo no seu pior. Como católico quero continuar a ter o direito de ler o Diário Ateísta ou o Código da Vinci.

A ideia da intocabilidade dos símbolos religiosos parece-me delirante numa sociedade aberta: quem vai definir o que é blasfémia? Os líderes religiosos (eu não punha esse poder nas mãos do Papa!) ou os confrontos nas ruas? Se dois mil católicos fundamentalistas atacarem a embaixada dos EUA por causa do livro e do filme do Código da Vinci estes passariam automaticamente a ser licenciosidade e não liberdade de expressão?

Em síntese, acho que esta questão tem menos de religioso do que político e no campo político demonstra uma enorme falta de respeito dos líderes islâmicos pelos valores fundamentais do ocidente.

4 Comments:

Blogger lb said...

Totalmente de acordo.
(A declaração de Barroso não vi ou li.)

11/2/06 01:05  
Blogger Orlando said...

Amen!

11/2/06 10:32  
Anonymous Anónimo said...

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21/7/06 01:54  
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21/7/06 01:57  

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